À medida que nos aproximamos de 2026, o mercado de capitais norte-americano encontra-se numa encruzilhada fascinante. Após um triénio de ganhos extraordinários — com 2023, 2024 e 2025 a registarem subidas acumuladas que desafiaram a lógica de taxas de juro elevadas — as previsões para o S&P 500 em 2026 começam a desenhar um cenário onde a “excepcionalidade americana” será testada.
Os grandes bancos de investimento, como o Goldman Sachs, Morgan Stanley e JPMorgan, estão a publicar os seus outlooks, revelando uma divergência rara. Enquanto uns vêm a continuação da expansão impulsionada pela Inteligência Artificial (IA) e pela desregulação, outros alertam para o facto de as avaliações terem atingido níveis que, historicamente, precederam décadas de retornos medíocres.
I. As Previsões dos Gigantes: Alvos e Percentagens para 2026
Os alvos de Wall Street para o final de 2026 refletem um otimismo moderado, mas ainda assim positivo, projetando que o índice poderá navegar num ambiente de crescimento económico resiliente.
- Morgan Stanley (Otimista): O banco projeta que o S&P 500 atinja os 7.800 pontos até ao final de 2026. Isto representa uma subida potencial de aproximadamente 14% em relação aos níveis atuais. A justificação reside num “mix” de políticas favoráveis ao mercado, cortes de taxas pela Reserva Federal e uma redução massiva na carga fiscal corporativa (estimada em 129 mil milhões de dólares entre 2026 e 2027) através de novas legislações.
- Goldman Sachs (Equilibrado): David Kostin e a sua equipa estimam que o índice chegue aos 7.600 pontos em 2026, um ganho de cerca de 11%. O Goldman baseia esta previsão num crescimento dos lucros por ação (EPS) de cerca de 7% para 2026, após um aumento de 11% em 2025. No entanto, o banco alerta para um retorno anualizado de apenas 6,5% para a próxima década, refletindo o peso das avaliações atuais.
- JPMorgan (Positivo com cautela): O JPMorgan prevê ganhos de dois dígitos (entre 10% a 15%) para as ações globais, incluindo os EUA, em 2026. O banco foca-se no “superciclo da IA”, que acredita que irá impulsionar um crescimento de lucros acima da tendência (na ordem dos 13-15%) nos próximos dois anos.
- Deutsche Bank e BofA (A Grande Divergência): O Deutsche Bank posiciona-se no topo das previsões com uma subida potencial de 15%, enquanto o Bank of America (BofA) é o mais conservador, projetando apenas 4% de retorno, citando riscos de inflação persistente e avaliações esticadas.

Fonte: Opening Bell Daily
A média das previsões aponta para um alvo de 7.500 pontos, o que representaria um retorno de cerca de 9,3% — um número que, embora positivo, parece “morno” após anos consecutivos de retornos superiores a 20%.
II. Valorizações Atuais vs. Médias Históricas: O Elefante na Sala
Para entender se 2026 será um ano de glória ou de correção, é imperativo olhar para os múltiplos. Atualmente, o S&P 500 está a ser negociado com um rácio Price-to-Earnings (P/E) de aproximadamente 26x (lucros acumulados) e um P/E Forward para 2026 de cerca de 23x. Podeis consultar mais em S&P 500 PE Ratio – Multpl.
Comparando com o passado:
- A Média Histórica: Desde 1950, a média do P/E do S&P 500 ronda os 16x a 18x. O nível atual de 26x coloca o mercado perto de extremos históricos.
- Shiller CAPE Ratio: Este indicador, que ajusta os lucros pela inflação ao longo de 10 anos, está perto de 39x. Historicamente, níveis acima de 30x só foram vistos antes do rebentamento da bolha das dot-com (2000) e na euforia pré-2022.
- Relação com Retornos Futuros: Historicamente, quando o P/E inicial é elevado, os retornos a 10 anos tendem a ser baixos. O Goldman Sachs nota que, com estas avaliações, a probabilidade de o S&P 500 render apenas 3% anual ao ano na próxima década é elevada.

Fonte: Real Investment Advice
Por que razão o mercado aceita pagar mais hoje?
A grande questão é: por que é que o S&P 500 não colapsa sob o peso destas avaliações? A resposta reside na composição do índice em 2026.
Diferente das décadas de 70 ou 80, onde o índice era dominado por empresas industriais e de energia com margens baixas, o S&P 500 de hoje é uma máquina de tecnologia e serviços. As margens líquidas de lucro estão perto de recordes históricos (13% a 13,6%), comparado com apenas 5% em 1990.
Empresas como a Nvidia, Microsoft e Apple justificam múltiplos maiores devido a:
- Escalabilidade Infinita: O custo marginal de vender software ou serviços de IA é quase zero.
- Fosso Competitivo (Moat): A infraestrutura necessária para IA cria barreiras à entrada gigantescas.
- Crescimento de Lucros: Espera-se que as “Magnificent 7” continuem a crescer lucros a ritmos de dois dígitos, servindo de âncora para o índice.
III. O “Superciclo da IA” e a Reestruturação da Economia
Em 2026, a Inteligência Artificial deixará de ser apenas uma “promessa” para se tornar um motor de eficiência real nos balanços. O JPMorgan e a Fidelity apontam que o impacto da IA está a expandir-se para além das tecnológicas.
- Produtividade das “Outras 493”: Se em 2024 e 2025 o rali foi concentrado em 7 empresas, em 2026 espera-se que as restantes 493 empresas do S&P 500 comecem a colher os frutos da produtividade da IA, permitindo uma expansão de margens em setores como saúde e banca.
- Desregulação e Política Fiscal: O cenário para 2026 inclui a expectativa de um ambiente regulatório mais leve e estímulos fiscais que podem injetar até 170 mil milhões de dólares na economia. Estes fatores funcionam como um vento de cauda que pode sustentar múltiplos elevados por mais tempo do que a média histórica sugeriria.
IV. Previsões vs. Realidade: O Histórico de (In)precisão de Wall Street
Para avaliar as previsões de 2026, devemos olhar para o quão errados os bancos estiveram nos anos anteriores. A verdade é que os estrategistas de Wall Street têm uma tendência crónica para subestimar o mercado em anos de alta e falhar na antecipação de quedas.
- 2023 (O Grande Erro): No final de 2022, o consenso era de que o S&P 500 teria um retorno inferior a 10% devido ao medo da recessão. O índice acabou por subir 27%.
- 2024 (Outra Falha): Muitos analistas, como Mike Wilson do Morgan Stanley, previam um ano estável (flat) com alvos na casa dos 4.500 pontos. O JPMorgan previa 4.200 pontos. O S&P 500 terminou o ano acima dos 5.800, uma subida de mais de 23%.
- Média de Erro: Em 13 dos últimos 16 anos, os estrategistas subestimaram os retornos do S&P 500. Em média, o índice supera o alvo dos bancos em cerca de 10%.
| Ano | Previsão Consenso (Início do Ano) | Resultado Real (Final do Ano) | Veredicto |
| 2020 | ~3.300 (pré-COVID) | 3.756 | Subestimaram (ignoração da recuperação rápida) |
| 2021 | ~4.100 | 4.766 | Subestimaram |
| 2022 | ~4.800 | 3.839 | Sobreestimaram |
| 2023 | ~4.000 | 4.769 | Subestimaram massivamente |
| 2024 | ~4.800 – 5.000 | 5.881 | Subestimaram massivamente |
Esta análise histórica sugere que, se os bancos preveem 7.500 para 2026, o mercado poderá muito bem testar os 8.000 ou mais, caso a tendência de subestimar o mercado se mantenha.
V. Fatores de Risco: O que pode correr mal em 2026?
Apesar do otimismo, 2026 não é isento de perigos. O mercado está precificado para a perfeição (“priced for perfection”), o que deixa pouca margem para erros.
- Concentração de Mercado: O S&P 500 está em níveis recorde de concentração. Se uma ou duas das grandes tecnológicas falharem o crescimento esperado de lucros, o índice inteiro sofre.
- Inflação “Sticky” (Persistente): O JPMorgan alerta para a probabilidade de 35% de uma recessão em 2026 devido à inflação persistente que pode impedir a Fed de cortar juros tanto quanto o esperado.
- Ciclo de Eleições Meio de Termo: Historicamente, os anos de eleições intercalares nos EUA (como 2026) costumam trazer correções significativas a meio do ano antes de uma recuperação final.
- O Fim dos “Ventos de Cauda”: O Goldman Sachs nota que fatores que impulsionaram os lucros nas últimas três décadas — queda de juros, queda de impostos e globalização — estão a inverter-se ou a estabilizar, o que significa que o crescimento terá de vir puramente da produtividade.
Conclusão: Como abordar o S&P 500 em 2026?
O artigo de 2026 será escrito com a tinta da prudência. Temos um mercado que justifica as suas valorizações atuais através de lucros reais e de uma revolução tecnológica sem precedentes (IA), mas que também ignora os sinais de alerta de múltiplos que historicamente levaram à exaustão.
Os grandes bancos apontam para um alvo médio de 7.500 a 7.800 pontos, o que sugere um ano positivo, mas volátil. Para o investidor, a lição dos anos de 2020-2024 é clara: as previsões de Wall Street são bússolas úteis, mas muitas vezes pouco precisas. O segredo para 2026 será a monitorização do crescimento dos lucros (EPS); enquanto as empresas continuarem a entregar resultados acima do esperado, o mercado terá combustível para ignorar o peso da história e continuar a sua marcha ascendente.
No entanto, com um P/E de 26x, 2026 exige que o investidor não seja apenas um comprador, mas um gestor de risco atento. Como o passado provou, o mercado tem o hábito de surpreender tanto os ursos quanto os touros de Wall Street.
Continue a ler: Financial Markets Forecasts 2026




